“É impossível separar bolsonarismo do antifeminismo”, diz antropóloga

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Rosana Pinheiro-Machado, doutora em Antropologia Social pela UFRGS

Bianca Borges

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Acadêmicos norte-americanos querem saber mais sobre a crescente direita brasileira e suas similaridades com o movimento equivalente, na América do Norte, que concebeu Donald Trump. Para tanto, levaram para lá a professora gaúcha Rosana Pinheiro-Machado, doutora em antropologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Ao lado da colega Lucia Mury Scalco, também doutora pela UFRGS, Rosana é coautora do estudo etnográfico “Da esperança ao ódio: Juventude, política e pobreza do lulismo ao bolsonarismo”. Esta pesquisa se debruçou sobre o consumo e a politização de jovens de uma comunidade carente que tinha histórico de voto petista e acabou votando em massa em Jair Bolsonaro na última eleição.

Para Rosana, o bolsonarismo é também uma reação à nova geração de meninas feministas, o que é inédito no Brasil. “É impossível separar a ‘crise do macho’ da crise econômica”, diz ela. “A crise econômica coloca em xeque o papel de provedor dos homens, que também é ameaçado pela ascensão das mulheres.”

Leia os principais trechos da entrevista.

UOL – Quais critérios vocês utilizaram para a análise, na pesquisa?

Rosana Pinheiro-Machado – Acompanhamos o cotidiano do Brasil popular para entender como as pessoas comuns reagiram às mudanças políticas e econômicas que aconteceram no país; e como eleitores pobres, de uma comunidade que tinha forte presença do PT, decidiram votar em Jair Bolsonaro. A riqueza de nosso estudo – daí o interesse das universidades norte-americanas – está na perspectiva longitudinal. Ou seja: a observação da mesma comunidade e sujeitos, por dez anos. Há poucos dados com essa profundidade e qualidade sobre o tema, no Brasil.

Por que focar em um grupo de jovens de baixa renda, moradores de uma favela e, em sua maioria, eleitores do sexo masculino?

Há anos já acompanhávamos esse grupo, desde que passaram a organizar os chamados “rolezinhos”.

À época, acreditávamos que os meninos estavam se politizando à esquerda. Dois anos depois, ficamos surpresas ao ver que a garotada tinha feito uma virada à direita: já eram fãs do Bolsonaro e demonstravam uma reação negativa em relação às meninas feministas antibolsonarismo.

Como esse grupo mudou tanto suas intenções de voto?

Um ponto central para entender a “virada bolsonarista” é que o Brasil passou por duas coisas, paralelamente. De um lado, uma crise econômica terrível que se aliou a uma crise política muito forte, em que parte da direita e do “centrão” que apoiaram o impeachment foi engolida pela extrema direita.

Na periferia, a recessão econômica atingiu os moradores de forma drástica. Eles se sentiram abandonados pelo sistema político, já em frangalhos desde 2016. Grande parte dos trabalhadores de baixa renda que apoiaram Bolsonaro votou nele, inicialmente, movida por frustração, medo, desamparo e raiva. Isso se transformou em esperança perto das eleições.

As pessoas queriam qualquer mudança, mesmo sabendo que Bolsonaro era ruim.

Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro (PSL) conduz reunião do Conselho de Governo, a primeira realizada após receber alta do hospitalImagem: Marcos Corrêa/PR

Mas em campo, vocês observaram um contraponto também, formado por grupos minoritários, não?

Sim. Por outro lado, desde os protestos de 2013, nasceu uma nova mobilização popular composta por mulheres, negros e LGBTs. Aí entra um aspecto importante do voto masculino bolsonarista.

Em nossa pesquisa, já identificávamos em 2016, que no caso dos meninos adolescentes da periferia, o bolsonarismo era uma reação à nova geração de meninas feministas, o que é inédito no Brasil. Temos muitas histórias de campo – e não apenas de jovens – de maridos que apoiaram Bolsonaro como uma forma de agredir as mulheres, que agora estão mais empoderadas do que antes.

Aqui nos Estados Unidos, o grande debate que tem sido feito na academia é qual o papel da masculinidade e da economia na ascendente ultradireita. Tenho respondido que, no Brasil, devido à intensidade de uma crise que foi multidimensional, é impossível separar a “crise do macho” da crise econômica. A crise econômica coloca em xeque o papel de provedor dos homens, que também é ameaçado pela ascensão das mulheres. Uma coisa alimenta a outra.

Em sua coluna no The Intercept, você aponta que a ultradireita venceu, mas que o feminismo e as lutas LGBT e antirracismo também. Como o bolsonarismo se encaixa entre essas “vitórias”?

O bolsonarismo é a vitória da extrema-direita, a radicalização de uma política de “nós contra eles”, cujo inimigo é interno – e não externo. Ele é uma subjetividade que só emerge dentro de circunstâncias históricas específicas, como a nossa frágil memória da ditadura. Tal qual na ditadura, o anticomunismo é relacionado com o reacionarismo moral voltado às questões de gênero e sexualidade. Passamos muito tempo pensando “Como o Brasil pode eleger Bolsonaro?”, mas a pergunta certa é: “Como conseguimos ter 12 anos de um governo progressista, apesar de um histórico tão violento e conservador como o nosso?”.

Se o conservadorismo sempre existiu – e agora se reapresenta com uma nova roupagem e eleito por uma ampla parcela da população – a novidade, portanto, é a onda de mulheres, LGBTs, negros e negras que se levanta e influencia as gerações mais jovens.

Alguns interpretam as falas misóginas, homofóbicas e racistas de Bolsonaro como brincadeira ou irreverência. E há eleitores de diferentes grupos, com interesses distintos e até contraditórios: evangélicos, homossexuais, antipetistas, grandes empresários, negros e saudosistas da ditadura.

A luta por reconhecimento das minorias, no Brasil, só ganhou centralidade nos últimos anos. Grande parte da população vive ainda uma tensão com sua identidade, dividida entre o papel de oprimido e o desejo entre ser parte do lado opressor. Fruto da colonização, há também uma luta constante para ser/parecer da elite. Isso explica porque tantos pobres, negros, mulheres e LGBTs apoiaram Bolsonaro.

A grande maioria queria mudança. Os pobres queriam mais direitos e qualidade de vida, enquanto a elite temia perder privilégios. Uns votaram para ganhar e outros, com medo de perder. Mas a questão é que, ainda que o eleitor do Bolsonaro esteja mais ao sul do país, seja homem, branco e escolarizado, ele obteve votos em todas as classes, raças e entre mulheres. Isso é muito diferente da eleição nos Estados Unidos, em que os negros, por exemplo, não votaram em Trump.

Vocês identificaram uma mudança no perfil das jovens periféricas, cada vez mais politizadas e feministas. Qual o perfil da mulher pró-Bolsonaro e quais as consequências, na prática, das manifestações do #EleNão, encabeçadas por feministas, para os rumos da eleição?

A mulher bolsonarista é uma pessoa de elite que teme perder privilégios, acha que feminismo é ser “feia” e “suja”, que vive para manter e exibir uma vida de aparências, de casamento “perfeito”. Muitas vezes são também as mulheres que frequentam as igrejas do “Brasil popular”, em que a “moral da família” está sempre acima de tudo. O #EleNão foi um movimento incrível para mostrar a força das mulheres que rejeitam Bolsonaro. Seu impacto foi enorme e será maior, pois ainda teremos muitas manifestações lideradas por mulheres e este é um espaço importante para a politização desse grupo.

Mandel NGAN / AFP
O presidente dos EUA, Donald TrumpImagem: Mandel NGAN / AFP

Houve um movimento similar à ascensão de Bolsonaro no surgimento de Donald Trump, nos Estados Unidos?

Na eleição deles há um fenômeno parecido: os eleitores querem uma mudança de qualquer jeito e veem em Donald Trump certo radicalismo, entendendo que Barack Obama era apenas mais um político tradicional (não por causa de uma crise política, como no Brasil, mas em função da crise econômica de lá). Nos EUA, assim como no Brasil, os fatores “reação” e “preconceito” foram decisivos para eleger Trump, por eleitores de classe média que culpavam as minorias pelo seu empobrecimento, sentimento expresso em figuras como a “welfare queen” [um estereótipo racista norte-americano, que se refere a uma mulher pobre, especialmente negra, que sobreviveria às custas de programas governamentais assistencialistas, como o nosso Bolsa Família].

E o que difere os dois presidentes, na sua leitura?

O trumpismo tem muitas semelhanças com o bolsonarismo, mais do que as figuras em si, que são totalmente diferentes. O sonho de Bolsonaro é ser o “Trump dos Trópicos”, mas ele não é. O que ele, seus estrategistas e seguidores fazem é agir por meio de um falso perfil de outsider, que uma parte do eleitorado branco, masculino e conservador se identifica devido a “ignorância e arrogância”. Ambos dificilmente acreditaram que iriam ganhar e talvez nem quisessem ganhar. Ganharam por representar uma mudança radical.

Mas é importante fazer uma distinção: Trump pode não ter muito conhecimento geral, assim como Bolsonaro, mas é inteligente, articulador e realizador. Bolsonaro é só um insignificante, sem capacidade sequer de estruturar um pensamento em uma frase.

Como podemos entender a vitória desses dois presidentes, em seus respectivos contextos?

As fake news (notícias fraudulentas) e o engajamento de seguidores fez com que suas imagens fossem moldadas como “homens ideais” em suas respectivas culturas: Trump, um realizador bilionário. Bolsonaro, um homem que representa a ordem, a simplicidade do brasileiro comum. Há muita fantasia em torno desses personagens, mas eles encarnam imagens culturais poderosas.

Não dá para esquecer que ambos tiveram suas imagens desenvolvidas em programas de TV populares, como as várias aparições de Bolsonaro no Super Pop e Pânico, falando sandices; e Trump, apresentando o reality show The Apprentice. Isso passou longe da esquerda tradicional, que sequer sabe o que são esses programas, porque perdeu completamente a relação com as bases populares.

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Rosana Pinheiro-Machado, doutora em antropologia social, durante apresentação nos Estados UnidosImagem: Divulgação

Um dos aspectos que chamam a atenção em ambos é o uso da linguagem. Na sua pesquisa, a senhora aponta que a estética formada por “memes”, piadas 2.0 e uma gramática de internet atraiu a juventude bolsonarista. Quais os reflexos dessa identificação?

Ela é a necessidade quase desesperada de quebrar uma velha política (distante, cinza e cheia de homens brancos e de terno) e transformar os políticos em “gente como a gente”, em um líder popular. Bolsonaro é um sujeito que mobiliza isso muito bem e continua insistindo em postar coisas cotidianas e fazer o papel de debochado para sua torcida de fãs. E ele vai continuar brincando no Twitter, enquanto sua base se mata entre si, seus ministros dizem e desdizem e seus filhos são acusados de corrupção.

Por que as universidades daí e os estudiosos norte-americanos estão interessados em nós?  

Eles querem entender as semelhanças entre Trump e Bolsonaro. Saber como foi possível uma democracia emergente, como a nossa, cair nesse abismo.

Mas eles precisam saber que, assim como as americanas, as mulheres brasileiras também estão conquistando um espaço que outrora não existia. A grande ironia foi ter sido necessário o sistema colapsar para que elas ganhassem esse espaço, porque no establishment da esquerda também não havia lugar para elas.

Elas também são a resposta da crise do establishment, mas a resposta que vem do lado certo!

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