Por que a reforma trabalhista de Rogério Marinho não reduziu o desemprego

Desde que as novas regras entraram em vigor, taxa de desocupação passou de 12,2% para 12,4% e nº de desalentados pulou de 3,9% para 4,3%

A reforma trabalhista de 2017, em vigor há quase um ano e meio, tendo como relator o então deputado potiguar Rogerio Marinho ainda não teve impacto na economia brasileira. Após a aprovação das novas regras, criadas com a promessa de ajudar a reaquecer o mercado, a taxa de desemprego oscilou de 12,2% para 12,4% e a porcentagem de pessoas desalentadas – aquelas que desistiram de procurar uma ocupação – pulou de 3,9% para 4,3%.

Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), órgão responsável pelas estatísticas oficiais do País, e são referentes ao trimestre terminado em janeiro de 2018 até os três últimos meses com dados disponíveis (de dezembro do ano passado até fevereiro de 2019). O primeiro recorte do levantamento contempla o mês em que as novas leis passaram a valer. A reforma foi aprovada pelo Senado Federal em julho de 2017, mas só entrou em vigor em novembro daquele ano.

No dia 27 de março deste ano, milhares de pessoas enfrentaram uma fila gigante no Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista, onde aconteceu um Mutirão de Emprego promovido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo e o Sindicato dos Comerciários (27/03/2019)
No dia 27 de março deste ano, milhares de pessoas enfrentaram uma fila gigante no Vale do Anhangabaú, no centro da capital paulista, onde aconteceu um Mutirão de Emprego promovido pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo e o Sindicato dos Comerciários (27/03/2019)

Foto: NELSON ANTOINE / Estadão Conteúdo

Segundo o professor de Economia do Insper Fernando Ribeiro as mudanças não fazem efeito em um País estagnado. “O nível de emprego depende, primeiro, da expectativa que os empresários têm de obter lucro com a produção”. O especialista explica que as novas regras só vão facilitar contratações quando a classe empresarial estiver segura sobre o futuro dos negócios.

“A renda do empresário é o lucro. Ele olha para o futuro e conversa com outros empresários. Se está todo mundo em compasso de espera, pode ficar de graça contratar que eles vão esperar”, afirma o economista.

Na última quarta-feira (24), o Ministério da Economia divulgou que o País fechou 43.196 vagas de emprego com carteira assinada no mês de março, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). O saldo em 2019 ainda está positivo em 179.543, mas o número do terceiro mês do ano foi um baque para o mercado, que previa a abertura de mais vagas no mês.

“Esse dado vem aumentar o medo de que a gente possa estar gerando um esfriamento da economia”, disse ao Terrao assessor para assuntos estratégicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), André Rebelo.

Vista de cima da fila que se formou no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, em março deste ano (26/03/2019)
Vista de cima da fila que se formou no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, em março deste ano (26/03/2019)

Foto: FÁBIO VIEIRA/FOTORUA / Estadão Conteúdo

Política monetária como solução?

O executivo da entidade que representa a classe industrial ressalta que a reforma trabalhista, aliada à terceirização, deu mais segurança para o empresário contratar, mas lembra que só haverá investimento com crescimento econômico. “Se a gente nao ativar a demanda, não tem mágica”.

Para Rebelo, o Brasil está com os dois pés no freio. Se por um lado acredita que o governo de fato não deve mais apostar em política fiscal expansionista, devido à dívida pública elevada, de outro, o assessor da Fiesp vê como urgente a redução da taxa básica de juros, a Selic. Ou seja, para ele, o governo deveria usar a política monetária para estimular o mercado.

Rebelo afirma que a taxa, hoje fixada em 6,5% pelo Banco Central, deveria cair até 5% para incentivar o crédito e aumentar a demanda no País. Assim, segundo Rebelo, os empresários voltariam a contratar e a reforma trabalhistaimpulsionaria a queda do desemprego.

Roberto Campos Neto é o atual presidente do Banco Central do Brasil (26/02/2019)
REUTERS/Ueslei Marcelino
Roberto Campos Neto é o atual presidente do Banco Central do Brasil (26/02/2019) REUTERS/Ueslei Marcelino

Foto: Reuters

O assessor da Fiesp defende as reformas, como a previdenciária e a tributária, mas acredita que o governo está dando pouca atenção ao curto prazo. “O risco é só pensar na reforma lá na frente, cochilar aqui e descarrilar na economia”.

Mais emprego e menos direitos?

O diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, concorda que, do ponto de vista da ocupação, a reforma trabalhistanão produz impacto. “A taxa de desemprego não vai cair por causa das regras criadas, vai cair quando a economia voltar a crescer”, prevê.

Porém, Clemente se mostra pessimista quanto à política econômica do novo governo. “Estamos longe de observar um crescimento capaz de mudar a performance da dinâmica e com impacto sobre o emprego”.

Para o diretor do Dieese, o que muda é a relação de trabalho. Ele diz que as novas regras retiram a proteção existente pela convenção coletiva, por possibilitar acordos diretos entre empregado e empregador, sem intermediação do sindicato. “Os vínculos mais estáveis vão sendo eliminados, dando lugar a contratos intermitentes e jornadas parciais”.

Durante a campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro chegou a declarar, em entrevista ao Jornal Nacional, que “o trabalhador terá que escolher entre mais direitos e menos emprego, ou menos direitos e mais emprego”.

Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília 07/01/2019 REUTERS/Adriano Machado
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília 07/01/2019 REUTERS/Adriano Machado

Foto: Adriano Machado / Reuters

O professor de Economia do Insper, Fernando Ribeiro, explica que a reforma torna mais fluido o processo de demissão e contratação de trabalhadores. “Mal ou bem, a reforma tornou mais barato o emprego”.

Para ele, no momento em que a economia voltar a crescer, a reforma trabalhista vai contribuir para a redução mais acelerada do desemprego. “Ela deixa o nível de emprego mais articulado com o próprio ciclo econômico”. Porém, Ribeiro alerta que “os empregos serão com baixos salários e relativamente precários”.

TERRA

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