Prefeito de Dallas diz ‘discordar fortemente’ de Bolsonaro

“Se eu não posso ser bem recebido em Nova York, seremos no Texas.” Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro anunciou a deputados federais, nesta semana, que viajaria a Dallas para receber uma homenagem agendada anteriormente para ocorrer em Nova York – a participação ali foi cancelada após críticas feitas a Bolsonaro pelo prefeito da cidade, Bill de Blasio. A mudança de endereço, no entanto, não será acompanhada de elogios do prefeito local. Em manifestação enviada ao Estado, por meio de nota, Mike Rawlings afirmou que “discorda fortemente de algumas das posições declaradas do presidente Bolsonaro”.

A diferença é que Rawlings – que, assim como de Blasio, é do Democrata, partido de oposição ao governo de Donald Trump – não pretende atuar contra a visita de Bolsonaro à cidade que governa. “Eu tenho um grande respeito pelo povo brasileiro e não vou me envolver em uma disputa política pública com nenhum líder democraticamente eleito”, declarou.

Mike Rawlings, prefeito de Dallas
Mike Rawlings, prefeito de Dallas

Foto: Carlo Allegri / Reuters

Bolsonaro passará apenas dois dias em Dallas – dias 15 e 16 de maio. Não está prevista a presença de Rawlings em nenhum dos eventos dos quais o presidente brasileiro deve participar. Na quinta-feira, 16, Bolsonaro será recebido no World Affairs Councils of Dallas em um encontro com lideranças empresariais e integrantes da sociedade civil.

Em nota, o CEO da instituição, Jim Falk, afirmou que o evento tem por objetivo oferecer aos membros do grupo a possibilidade de ouvir pessoas em posição chave no mundo. “Estamos ansiosos para ouvir o presidente do maior país do hemisfério sul e o quinto maior país do mundo”, afirmou.

O presidente do conselho da instituição, Jorge Baldor, ressaltou que a instituição não endossa as posições dos palestrantes. “Nosso objetivo é simplesmente fornecer aos nossos membros oportunidades de ouvir diretamente e se envolver com líderes globais”, afirmou Baldor, também em nota. Segundo ele, a instituição foi consultada sobre a possibilidade de receber Bolsonaro e concordou.

Apesar de o Estado do Texas ser conservador e de tendência republicana, a região de Dallas é considerada um dos pontos azuis (referência à cor dos democratas) no oceano vermelho texano. Têm as mesmas características as cidades de Houston, Austin, El Paso, Santo Antonio, além da parte sul do Estado – locais onde Hillary Clinton teve mais votos que Trump, na eleição que disputaram em 2016. A cidade de Houston, onde o Itamaraty também cogitou organizar a visita presidencial, elegeu a primeira homossexual para comandar uma cidade grande americana.

Viagem foi articulada às pressas

A viagem ao Texas foi articulada pelo Itamaraty às pressas, depois que o presidente decidiu não ir a Nova York, onde receberia o prêmio de personalidade do ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. A homenagem a Bolsonaro passou a ser objeto de boicote e protestos de ativistas ligados à causa ambiental e aos direitos LGBTQ. Primeiro, a Câmara teve dificuldade em achar um lugar que aceitasse sediar o jantar de gala. Depois, ao menos três empresas decidiram deixar de patrocinar a premiação.

No twitter, Bill de Blasio afirmou que Bolsonaro era um ser humano “perigoso” devido ao “seu racismo e homofobia evidentes” e por ser a pessoa com “maior poder de impacto sobre o que acontecerá na Amazônia daqui para frente”. A parlamentares no Brasil, Bolsonaro afirmou que o prefeito nova-iorquino se comportou como “um radical”.

Diante das críticas, o governo brasileiro ponderou que o Texas seria menos hostil a Bolsonaro e que teria um aliado local: o senador republicano Ted Cruz, que já se encontrou com Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em Washington, ano passado.

Desde a campanha eleitoral, posições de Bolsonaro sobre direitos humanos, questões ambientais, raça e orientação sexual têm destaque na imprensa internacional. Ao anunciar o cancelamento da viagem a Nova York, a rede de televisão CNN afirmou que “o político de extrema direita” é conhecido por posições contra o meio ambiente e contra politicas de igualdade. O jornal The New York Times chamou atenção para posições de Bolsonaro sobre demarcação de terras indígenas e questões ambientais, além de mencionar que o presidente brasileiro tem um histórico de declarações “sexistas, racistas e homofóbicas”.

Na primeira passagem pelos Estados Unidos após tomar posse, em março, Bolsonaro tentou desfazer essa imagem a americanos. Em uma palestra a investidores, fez questão de afirmar que não é homofóbico. Em entrevista à Fox News, também em março, rejeitou rótulos de racista ou homofóbico: “Se eu fosse tudo isso, eu não teria sido eleito presidente”, disse, emendando que há um problema de “fake news” no Brasil.

ESTADÃO

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