CIA revela que usava pombos como espiões contra a União Soviética

Os pássaros foram treinados por agentes para realizar missões secretas, revelam arquivos tornados públicos recentemente.
Gordon Corera – Da BBC News

A CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, revelou detalhes de suas missões até então secretas com pombos-espiões durante a Guerra Fria.

A CIA pensou que pombos poderiam ser usados ​​para espionar a União Soviética
A CIA pensou que pombos poderiam ser usados ​​para espionar a União Soviética

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Os arquivos mostram como pássaros da espécie foram treinados para missões clandestinas com o objetivo de fotografar locais estratégicos dentro da União Soviética, bloco socialista que disputava o poder geopolítico com os Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial.

As revelações também detalham como corvos foram usados para soltar objetos nos peitoris de janelas e os golfinhos foram treinados para missões subaquáticas.

A CIA acreditava que os animais poderiam cumprir tarefas “únicas” em operações clandestinas da agência.

Dentro da sede da agência na cidade de Langley, no Estado americano da Virgínia, há um museu, infelizmente fechado ao público em geral. Durante uma visita para entrevistar um ex-diretor, vi algo incomum em meio a todos os dispositivos de escuta e de espionagem.

Era o modelo de um pombo com uma câmera acoplada a ele.

Meu interesse cresceu pelo fato de eu estar escrevendo na época um livro sobre pombos espiões britânicos durante a Segunda Guerra Mundial. Mas logo me disseram repetidamente que os detalhes das missões de espionagem da CIA com uso de animais ainda eram classificados como sigilosos. Isso até agora.

Saber voltar para ‘casa’

A operação dos anos 1970 teve o codinome de “Tacana”, e explorou o uso de pombos com pequenas câmeras para tirar fotos automaticamente, mostram os arquivos tornados públicos recentemente.

A CIA se aproveitou do fato de que pombos possuem uma habilidade incrível – quase um superpoder. Eles podem ser soltos em lugares onde nunca estiveram antes e, ainda assim, encontrar o caminho de volta mesmo estando a centenas de quilômetros de “casa”.

O uso de pombos para a comunicação remonta a milhares de anos, mas foi na Primeira Guerra Mundial que eles começaram a ser utilizados para coletar informações de maneira secreta.

Na Segunda Guerra Mundial, um ramo pouco conhecido do serviço de inteligência britânica – o MI14 (d) – administrou um Serviço Secreto de Pombos, que lançou pássaros em um contêiner com paraquedas sobre a Europa Ocupada. Um questionário foi anexado. Mais de 1.000 pombos retornaram com mensagens de resposta, que incluíam detalhes sobre estações de radar e locais de lançamento de foguetes V1 – usados pela Alemanha nazista.

Uma mensagem de um grupo de resistência chamado Leopold Vindictive produziu um relatório de inteligência de 12 páginas enviado diretamente a Winston Churchill, então primeiro-ministro do Reino Unido. Após a guerra, um “Pigeon Sub-Committee” (ou ‘Subcomitê Pombo’, em português), seção especial do Comitê Conjunto de Inteligência da Grã-Bretanha, analisou opções de projetos futuros para a Guerra Fria. Mas enquanto as operações britânicas foram em grande parte encerradas, a CIA assumiu a exploração do poder dos pombos.

A operação Tacana foi um resultado do trabalho realizado na década de 1960, que examinou os usos de diferentes animais. Os arquivos revelam que a CIA treinou um corvo para entregar ou recuperar pequenos objetos de até 40 gramas do parapeito de janelas de edifícios inacessíveis.

Um raio laser vermelho piscante foi usado para marcar o alvo e uma lâmpada especial atrairia o pássaro de volta. Em uma ocasião na Europa, a CIA secretamente usou um pássaro para deixar um dispositivo de escuta na uma janela de um prédio (embora nenhum áudio do alvo pretendido tenha sido captado).

A agência americana também analisou se aves migratórias poderiam ser usadas para colocar sensores que perceberiam se a União Soviética havia testado armas químicas.

Golfinhos com sensores

Parece também que houve testes de algum tipo de estimulante elétrico do cérebro para orientar cães de forma remota, embora muitos dos detalhes dessas tentativas ainda sejam classificados como sigilosos.

Uma operação relatada anteriormente, chamada “Acoustic Kitty”, envolveu a implantação de dispositivos de escuta dentro de um gato.

Na década de 1960, os arquivos mostram que a CIA examinou o uso de golfinhos para “penetração em portos”, tripulados ou não. Um problema estava em transferir o controle de um treinador que havia trabalhado com o animal para um agente de campo.

Em Key West, na Flórida, uma equipe também tentou usar golfinhos para ataques subaquáticos contra navios inimigos. Também foram realizados testes para determinar se os golfinhos poderiam transportar sensores para coletar os sons dos submarinos nucleares soviéticos ou procurar vestígios de armas radioativas ou biológicas em instalações próximas.

Recentemente, a Marinha dos EUA usou golfinhos em operações de remoção de minas
Recentemente, a Marinha dos EUA usou golfinhos em operações de remoção de minas

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A agência também analisou se os golfinhos poderiam recuperar ou colocar pacotes em navios em movimento.

Em 1967, a CIA estava gastando mais de US$ 600 mil em três programas – Oxygas para golfinhos, Axiolite envolvendo pássaros, e Kechel com cães e gatos.

Mais qualidade que satélite

Os detalhes são até cômicos. Um arquivo detalha o treinamento de falcões canadenses em um barco – antes, o documento menciona que tentou-se usar uma cacatua. “Estamos completamente no escuro sobre quais são as possibilidades em relação a esse bicho”, escreve o autor.

Os pombos se mostraram os mais eficazes e, em meados da década de 1970, a CIA começou a realizar uma série de missões de teste. Um dele foi lançado sobre uma prisão, outro sobre Navy Yards, distrito de Washington.

A câmera custou US$ 2.000 na época e pesava apenas 35 gramas – o chicote pesava 5 g. Os testes mostraram que cerca de metade das 140 fotos em um rolo de filme era de boa qualidade. As imagens mostram detalhes notavelmente claros de pessoas andando e carros estacionados na região de Navy Yard.

Especialistas descobriram que a qualidade das fotografias era superior às produzidas por satélites de espionagem que operavam na época.

Um receio levantado durante os testes foi o de que um cidadão comum tropeçasse em “pombo com câmera” e pensasse que o governo estava o espionando.

A missão pretendia que os pombos fossem usados contra alvos de inteligência “prioritários” dentro da União Soviética. Os arquivos indicam que os pássaros seriam enviados secretamente para Moscou. A CIA examinou várias maneiras de liberá-los: debaixo de um sobretudo grosso ou de um buraco embaixo de um carro quando estacionado.

Eles até analisaram se os pombos poderiam ser lançados de uma janela lateral enquanto o carro viajava a cerca de 10 km por hora. Um pombo seria lançado a alguns quilômetros de uma instalação de destino e voaria sobre o alvo antes de retornar ao local que havia sido treinado para reconhecer como lar.

Um documento de setembro de 1976 afirma que um alvo havia sido selecionado – estaleiros na cidade de Leningrado (atual São Petersburgo) que construíram os submarinos soviéticos mais avançados. A ideia era usar os pombos para fotografar o local.

Nesse ponto, foi decidido que a operação parecia viável. Mas, infelizmente, é aí que termina a história dos pombos nos arquivos tornados públicos.

A missão deu certo? E, depois, quantas missões os pombos espiões fizeram e o que eles descobriram? Aparentemente, isso ainda é secreto.

BBC News Brasil
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