Coronavírus segue provocando nervosismo aos mercados

Foto: Marcelo Casal Jr/Agência O Globo

O dólar comercial superou novo recorde intradiário ao chegar aos R$ 4,662 por volta das 14h. Diante deste cenário, o Banco Central (BC) anunciou três intervenções extraordinárias no câmbio somente nesta quinta. Mais cedo, quando duas ações foram feitas, o câmbio não cedeu. Por enquanto, a moeda americana ainda sobe 1,77%, a R$ 4,66. O Ibovespa (índice de referência da Bolsa de SP) recua 2,95%, aos 104.056 pontos, em linha com o exterior.

O dia é de queda nas bolsas do mundo inteiro. Nos EUA, o Dow Jones, principal índice da Bolsa de Nova York, chegou a cair 3% logo após a abertura dos mercados e perto das 14h (horário do Brasil) recuava 2,26%. O Nasdaq recuava 1,58% e o S&P tinha queda de 2,11%.

O agravamento do surto do novo coronavírus no mundo traz nervosismo aos mercados.

— É muita gente movendo na mesma direção ao mesmo tempo. Se você tem uma alta de 4,5% num dia (foi o quanto chegou a subir a Bolsa americana na quarta-feira) e uma queda de 2% no dia seguinte, o que significa? Significa que simplesmente não sabemos o que está acontecendo — disse Kathryn Kaminski, chefe de pesquisa e estratégia do AlphaSimplex Group à Bloomberg.

A Califórnia entrou em caso de emergência após o governo do estado ter confirmado 53 casos de Covid-19 (nome da doença causada pelo coronavírus), número mais alto dos Estados Unidos. Na Europa, a Itália fechou escolas e universidades até a metade de março para conter a disseminação da doença.

No Brasil, a perspectiva de que o BC terá de reduzir os juros – após os EUA terem feito um corte extraordinário na sua taxa básica na terça-feira – e o fraco resultado do PIB de 2019 divulgado nesta quarta pelo IBGE são fatores adicionais a pressionar Bolsa e dólar.

Dentro de uma cesta de 21 moedas de economias emergentes, compilada pela agência Bloomberg, o real é a divisa que mais se desvalorizou frente ao dólar, com queda de 12,1%. Em seguida, vêm o peso chileno (-7,94%) e o peso mexicano (-3,11%).

— A disseminação e os impactos econômicos globais do coronavírus, junto com indicadores internos apontando para crescimento mais fraco fazem com que o dólar siga essa trajetória de disparada — diz Álvaro Bandeira, economista-chefe do banco digital Modalmais.

Nesta quinta-feira, o dólar já abriu acima de R$ 4,60, mesmo após o BC ter anunciado, na véspera, um leilão de 20 mil contratos de swap cambial (oferta de dólar com compromisso de recompra). A cotação também não recuou no início da manhã, quando foi feito outro leilão de 20 mil contratos. No início da tarde, nova oferta de 20 mil papéis foi ofertada. Assim, o BC colocou no mercado, somente nesta quinta, US$ 3 bilhões.

— A a atuação do BC não é para definir um patamar de câmbio, é para conter distorções observadas no mercado — avalia Gilmar Lima, economista do BMG.

Os efeitos do coronavírus na economia global estão levando analistas a preverem um corte maior de juros pelo BC.

— O mercado parou de projetar se o BC cortaria ou não ou juros. Agora avalia se o corte na Selic será de 0,25 ou 0,5 ponto percentual daqui a duas semanas. Com juros mais baixos, o ‘carry trade’ (aplicações nas quais o investidor busca ganhar com a diferença entre câmbio e juros) fica menos atraente ainda, fazendo com que investidores externos não venham para cá, ou, quem já está aqui, saia — explica Bandeira.

Atualmente, a taxa básica de juros Selic está em 4,25% ao ano, piso histórico para o indicador. Após a decisão do Federal Reserve (Fed, banco central americano) da terça-feira passada, o BC brasileiro sinalizou que também pode reduzir a taxa de juros aqui.

Os grandes bancos estão revisando as projeções para Selic neste ano. Na segunda-feira, o Goldman Sachs publicou relatório no qual projeta que os juros brasileiros encerrem o ano em 3,75%. O Bank of America (BofA) também revisou seus números, e agora projeta juros a 3,5% este ano.

Destaques do Ibovespa

As ações de maior influência na Bolsa brasileira operam em queda nesta quinta, também repercutindo os desdobramentos do coronavírus e as projeções de uma economia mais fraca em 2020.

Os papéis ordinários (ON, com direito a voto) e preferenciais (PN, sem direito a voto) da Petrobras caem, respectivamente, 2,62% e 2,49%. Também influencia a queda de 0,7% na cotação do barril de petróleo tipo Brent, que é negociado a US$ 50,77.

A Vale, que tem em Pequim seu principal comprador de minério de ferro, opera com perdas de 2,24% nesta sessão, resultado potencializado pela projeção do mercado de que a China demandará menos commodities diante dos impactos econômcios causados pelo Covid-19.

O setor bancário, de maior peso no índice, também opera com perdas nesta quinta. Os papéis ON do Banco do Brasil caem 3,88%. As ações PN do Bradesco e do Itaú Unibanco perdem, respectivamente, 1,32% e 2,06%.

Em percentual, porém, a maior queda fica por conta da resseguradora IRB Brasil: 11,08%. A empresa, na véspera, tombou 32% na Bolsa após o bilionário americano Warren Buffett negar que detenha ações ou que tenha vontade de comprar papéis da empresa.

Neste pregão, pesa o pedido de demissão de José Carlos Cardoso, presidente do IRB, e o Fernando Passos, seu vice.

O Globo, com agências internacionais

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