Eleições na Bolívia: Esquerda volta ao pode pelo voto popular


BBC

As primeiras projeções da contagem de votos das eleições presidenciais da Bolívia apontam uma vitória do ex-ministro Luis Arce, candidato do partido do ex-presidente Evo Morales, o Movimiento al Socialismo (MAS).

A boca de urna do instituto Ciesmori divulgada pela emissora Unitel deu a Arce 52,4% dos votos, muito mais do que previam as pesquisas eleitorais, no patamar de 40%. O ex-presidente Carlos Mesa, adversário de Arce pela coligação Comunidad Ciudadana (CC), estava nas projeções com 31,5%.

Em terceiro lugar aparecia Luis Fernando Camacho, conhecido como o “Bolsonaro boliviano” e um dos líderes da revolta que contribuiu para a queda de Morales em 2019, com 14,1% dos votos.

Segundo as regras eleitorais da Bolívia, um candidato pode ser eleito no primeiro turno se tiver 50% dos votos mais um, ou atingir o patamar 40%, com dez pontos percentuais a mais que o segundo colocado.

Diversos candidatos mais à direita do espectro político chegaram a desistir de concorrer para tentar evitar uma vitória no primeiro turno, a exemplo da atual presidente, Jeanine Áñez.

A notícia foi divulgada no país depois da meia-noite (horário local), em meio a uma contagem oficial extraordinariamente lenta, que causou incertezas e tensões após um dia de votação que transcorreu com tranquilidade.

“Recuperamos a democracia e recuperamos a esperança”, disse Arce, visivelmente emocionado. “Vamos construir unidade.”

E completou: “Vamos construir um processo de mudança (…) aprendendo com os nossos erros”.

O país sul-americano foi às urnas no domingo para refazer as eleições canceladas há um ano em meio a denúncias de fraude.

O pleito anterior desencadeou uma profunda crise política que resultou na renúncia e fuga do país de Evo Morales e na chegada à Presidência interina da então senadora Jeanine Áñez.

Quem é Luis Arce Catacora?

A trajetória política de Arce está intimamente ligada à de Evo Morales, de quem foi ministro da Economia durante grande parte dos 14 anos em que o então presidente esteve no poder.

Artífice da política econômica de Morales, ele é visto como o responsável pelas reformas que levaram ao crescimento econômico da Bolívia por uma década.

Nascido em 1963 em La Paz em uma família de professores, Arce estudou economia na Bolívia, fez mestrado no Reino Unido e, ao retornar ao país, passou a trabalhar como funcionário público no Banco Central da Bolívia (BCP), onde atuou em diversas posições.

Em paralelo, ele também deu aulas em universidades da Bolívia, dos Estados Unidos e da América Latina, como Harvard, Columbia e a Universidade de Buenos Aires.

Após a ascensão de Morales ao poder, foi nomeado em 2006 para titular do então Ministério da Fazenda, que três anos depois se tornaria o Ministério da Economia e das Finanças Públicas.

Sua gestão é considerada um dos pilares que levaram o país sul-americano não só ao boom econômico mas também à redução da inflação e, principalmente, da pobreza.

À frente do ministério, ele promoveu medidas de incentivo ao mercado interno, equilíbrio cambial e políticas de industrialização ligada aos recursos naturais do país.

Uma de suas medidas mais importantes, e também controversas, foi uma série de “nacionalizações” de empresas privadas, principalmente do setor de hidrocarbonetos, algo que Arce considerava um das bases da economia boliviana nesses anos.

Em 2017, ele renunciou ao cargo por causa de um câncer renal. Voltaria ao posto após um longo tratamento no Brasil e só deixaria novamente o ministério com a renúncia de Morales há quase um ano, no conturbado processo eleitoral.

Em janeiro deste ano, o MAS o nomeou como seu candidato à Presidência, numa chapa composta também pelo ex-chanceler David Choquehuanca. O pleito estava previsto inicialmente para maio, mas a pandemia causou dois adiamentos, até finalmente ser realizada ontem.

A indicação do nome de Arce para a chapa presidencial gerou críticas dentro de seu próprio partido, por ele ser oriundo da classe média urbana, e não das organizações sindicais e camponesas que compõem grande parte da base de apoio do MAS.

Horas de incerteza

Durante as mais de nove horas de urnas abertas, os veículos de imprensa destacaram que o processo eleitoral transcorreu sem grandes incidentes.

Mas a votação não foi singular apenas por sua tranquilidade, por ter sido realizada no meio de uma pandemia ou por causa dos adiamentos anteriores. Foi também por causa da demora para divulgação dos resultados.

Na noite anterior à votação, o Tribunal Superior Eleitoral da Bolívia anunciou que não utilizaria um novo sistema de contagem rápida, e dava como certo o atraso nos resultados.

O presidente do TSE, Salvador Romero, explicou que tomou a decisão porque os testes realizados no sistema não davam confiança à contagem.

“O TSE realizou, ao longo das últimas semanas, testes e simulações do Direpre (sigla para novo sistema de Divulgação de Resultados Preliminares). E queremos informar ao país que os resultados dos testes não nos permitem ter certeza da divulgação completa dos dados que oferecem confiança ao país”, disse.

Conflitos na votação anterior com Morales

A votação em outubro de 2019 era muito mais apertada que a atual.

Os problemas começaram na própria noite das eleições, quando o Supremo Tribunal Eleitoral (STE) suspendeu a rápida contagem dos votos no momento em que a apuração estava 83% concluída. As projeções indicavam que haveria um segundo turno entre o presidente boliviano e Mesa.

No dia seguinte, a apuração foi retomada com 95% dos votos contabilizados e indicando que Morales venceria no primeiro turno por uma margem estreita, mas com mais de dez pontos percentuais de vantagem sobre Mesa, o que seria suficiente para lhe garantir um quarto mandato.

A paralisação do processo de contagem rápida e a retomada com um patamar muito maior para Morales alimentaram suspeitas que levaram a oposição a acusar os resultados de fraudulentos.

As crescentes dúvidas sobre a lisura do processo levaram diversos bolivianos às ruas. A OEA (Organização dos Estados Americanos) e a União Europeia pediram que fosse realizado um segundo turno.

Mas Morales, o primeiro presidente indígena do país, insistiu que havia vencido as eleições e, em resposta às manifestações da oposição, pediu aos seus apoiadores que “defendessem a democracia” nas ruas e impedissem um “golpe de Estado”.

Críticos e apoiadores de Morales passaram a se enfrentar nas ruas, e os confrontos deixaram mortos e centenas de feridos.

Num espaço de três semanas, Morales se declarou vencedor das eleições, denunciou um golpe de Estado, perdeu apoio das Forças Armadas e das polícias e renunciou à Presidência da Bolívia. “Houve um golpe civil, político e policial”, afirmou durante o pronunciamento em rede nacional no qual anunciou sua renúncia.

Dois dias depois, a senadora Jeanine Áñez assumiu a Presidência, e sua posse foi endossada pelo Tribunal Constitucional da Bolívia.

Não se sabe se Morales, que atualmente vive na Argentina, voltará à Bolívia com a vitória de seu aliado.

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