Arquivo diários:20/05/2018

Maurílio Pinto: “Quando um policial tem medo de bandido, é a falência da força policial do Estado”

Resultado de imagem para Maurílio PintoEnviado para o Blog do Primo por Edson Siqueira*

Lembro-me que  em 88 ou 90 um PM que morava em Cidade Nova,  tinha sido ameaçado de morte por um vagabundo em sua rua, depois que ele passou na viatura e abordou alguns vagabundos e o acusado estava no meio, ai começou uma ameaça contra o Praça,  que foi orientado a procurar seu comandante na época,  quando o Praça entrou para falar com seu comandante teve uma notícia desagradável,  o comandante orientou o comandado a sair de sua casa dizendo para ele morar em outro local. O comandante não deu apoio a seu subordinado, em seguida o Praça pediu para cautelar uma arma foi negado de novo, então foi que o Praça pensou e foi até o gabinete de Dr Maurílio Pinto de Medeiros tentar falar com o xerife.   Chegando na Secretaria contou tudo , em seguida  Dr Maurílio Pinto chama o arteiro seu Zé Carlos e determina: cautele uma arma para esse Praça se defender de um bandido já que o comandante dele não apoiou,  prontamente seu Zé Carlos trouxe, um 38 canela seca, e entregou ao Praça é pediu para ele assinar a cautela.  O policial militar agradeceu ao Dr Maurílio Pinto que e recebeu a palavra do xerife: “essa arma e para você se defender , se esse vagabundo procurar você atire para matar, sua vida e importante a do vagabundo”. O policial militar saiu satisfeito e não mudou seu endereço. Essa é uma das bondades que Dr Maurílio Pinto tinha em proteger seus policiais.

Para Maurílio Pinto, seus policiais e agentes do Estado tinham que ser intocáveis, seguros e suas famílias tinha que receber total proteção do Estado, ele sempre dizia, “policial não pode ter medo, quando um policial tem medo é o retrato que a aparato policial está perdendo para o crime.” Para Maurílio Pinto quando um policial tinha que mudar de endereço com medo dos marginais, era a falência do Estado.

DEUS espera ele de braços abertos vá com em paz xerife, Dr .MAURÍLIO PINTO DE MEDEIROS

*Advogado, ex-presidente da Associação dos Praças da PM/RN, ex-vereador de Natal.

Novos relatos apontam que base militar no AP esconde cemitério com desaparecidos do Araguaia

Guerrilheira Maria Lúcia, do PCdoB, foi morta e é um das desaparecidas no conflito

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

Relatos colhidos pela Comissão Estadual da Verdade do Amapá apontam para um local onde estariam restos mortais de desaparecidos da guerrilha do Araguaia nos anos 1970. Segundo depoimentos, mortos na Ditadura Militar (1964-1985) teriam sido enterrados em um cemitério clandestino dentro de uma base militar no município de Oiapoque (600 km de Macapá), já na fronteira com a Guiana Francesa.

Ainda de acordo com testemunhas, o governo do Território do Amapá à época teria dado apoio não só ao Exército e a suas expedições contra a guerrilha como também na ocultação de corpos dos guerrilheiros mortos.

O local exato onde os corpos estariam enterrados é a vila de Clevelândia do Norte, no extremo norte do estado –onde havia uma base de treinamento de militares para ações contra a guerrilha.

Segundo o presidente da Comissão da Verdade do Amapá, Dorival Santos, os relatos são considerados, por ora, como indícios, mas são pistas importantes para tentar desvendar ao menos parte do mistério que assombra cerca de 60 famílias que nunca acharam os corpos dos desaparecidos.

“Há vários relatos, mas não conseguimos encontrar provas com segurança histórica e científica. Por isso, recomendamos a investigação aprofundada do governo do estado e do Exército para saber se há esse suposto cemitério clandestino”, diz Santos. “Clevelândia era uma colônia militar desde os anos 20, e testemunhas que viveram ali indicam a possibilidade de que parte dos guerrilheiros tenha sido enterrada lá.

Segundo Santos, não se sabe se o governo à época realmente participou da ocultação dos corpos, mas também há indícios que isso deve ter ocorrido. “O governo do Território –e quanto a isso há provas– contribuiu com o Exército, e eles estavam articulados com a campanhas militares que ocorreram na região do Araguaia”, afirma.

Militar confirma operações

No relatório final da comissão, um depoimento chama a atenção: o de Valdim Pereira de Souza, enviado em expedição ao Araguaia, e que à época era militar do 52º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército. Ele também foi motorista, entre 1976 e 1983, do principal comandante do Exército à época das operações no Araguaia, o tenente-coronel Sebastião Rodrigues de Moura, o “Major Curió”.

Ele relata que “sucessivas operações pente-fino”, também conhecidas como “Operações Limpeza”, eram realizadas com apoio do governo amapaense. Carros oficiais de órgãos federais eram usados na ação.

Souza contou em seu depoimento que as ações foram realizadas de forma clandestina, por oficiais à paisana, com o “objetivo de ocultar indícios e dificultar possíveis investigações sobre as mortes e desparecimentos de guerrilheiros e camponeses na região”.

“O que eu fiquei sabendo da ‘Operação Limpeza’ era para apagar os vestígios de guerrilha. Isso é o que eu entendi, porque a gente ia muito para uma região chamada Bacaba do Quartel, e o Curió não vivia muito lá no quartel. Ele vivia lá para Brasília e quando ele chegava, me requisitava”, afirmou Souza, citando que muitas ossadas foram levadas por militares a cemitérios no período.

Ele ainda apontou que Clevelândia do Norte funcionou como base de preparação militar de treinamento na selva –já que os confrontos ocorriam em mata fechada.

Outro relato semelhante foi do militante paraense Paulo Fonteles de Lima Filho, filho do ex-deputado assassinado Paulo Fonteles. Em depoimento a membros da comissão em 2013, ele indicou o Amapá como “cenário obscuro de desaparecidos da guerrilha, principalmente, no que concerne a ocultação de cadáveres de guerrilheiros”.

MPF requer informações

Diante dos indícios, o MPF (Ministério Público Federal) do Amapá anunciou nesta quinta-feira (17) que enviou pedido de informações aos governos sobre a realização de buscas na região.

Para a procuradora regional dos Direitos do Cidadão, Nicole Campos Costa, as recomendações vão ao encontro da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Brasil sobre a guerrilha em 2010. “A gente questionou o que o governo do estado está adotando, se há ou haverá essas buscas, e não recebemos resposta até agora”, conta Costa.

Segundo a decisão da corte, o governo do Brasil foi responsável pela morte de 62 pessoas no Araguaia e passou a ter obrigação de localizar as vítimas desaparecidas durante a Ditadura Militar.

Nicole afirma que a cobrança de informações também foi feita à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério dos Direitos Humanos. “Já fomos informados que foram feitas algumas buscas preliminares ali na região do Bico do Papagaio, mas com esse relatório talvez seja interessante fazer essas averiguações no local indicado”, completa.

As buscas por ossadas dos combatentes e camponeses mortos durante a Guerrilha do Araguaia são feitas, desde 2011, pelo GTA (Grupo de Trabalho do Araguaia), formado por integrantes do Ministério dos Direitos Humanos, da Justiça e da Defesa.

O que foi a guerrilha do Araguaia

A Guerrilha do Araguaia aconteceu entre os anos de 1972 e 1975. Militantes de esquerda contrários à ditadura militar se instalaram no interior do Pará. A intenção era desestabilizar o regime a partir do combate em áreas rurais. A ideia era ganhar o apoio da população local antes de iniciar os combates às forças da ditadura.

Após descobrirem a presença de militantes de esquerda na região, os militares organizaram três operações com o objetivo de derrotar os guerrilheiros.

Arte/UOL

Mapa da região da Guerrilha do Araguaia, na divisa entre Tocantins e Pará

A região compreendia uma área de 6.500 km² entre São Domingos e São Geraldo, às margens do rio Araguaia, próximo à divisa com Maranhão e, atualmente, Tocantins. Foi lá que guerrilheiros do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) se organizaram para tentar derrubar o poder dos militares.

Com a promulgação da Lei de Anistia, em 1980, familiares dos guerrilheiros iniciaram a busca dos corpos. Foram feitas caravanas à região, mas quase nada foi encontrado até hoje.

Maurílio Pinto, xerife agora estrela

Por Rubens Lemos
Na primeira pauta, o impacto: Aquilo poderia ser uma caixa de assistência social, um confessionário, menos o gabinete do homem mais poderoso da polícia do Rio Grande do Norte. Contei, por baixo, umas 40
pessoas para se aconselhar, dedurar vizinhos, homens que produziam filho e sumiam deixando a barriga da mãe e a despesa para a família.

Uma bagunça. Todos falando alto e ao mesmo tempo. Galinhas cacarejavam. Galos de campina em gaiolas, numa tristeza infinita. Todos para entrega ao delegado Maurílio Pinto de Medeiros, chefe da Polícia Civil, Polinter e, de verdade, o Secretário de Segurança Pública de sempre.

Todos os mimos eram recusados. Um gordo, o homem, de palavras medidas e visão periférica na miudeza dos olhos. De conjunto bege
inconfundível. Calça e camisa de tecido. Uma mesa larga, juiz de paz que acalmava os valentões domésticos.

Foram meus primeiros dias de contato com Maurílio Pinto de Medeiros. Colega de turma do meu pai no velho Atheneu. Maurílio Pinto formado em jornalismo ainda na  Faculdade Eloy de Souza, Fundação José Augusto,  ali, nas alamedas que ainda existiam no Tirol aprazível.

Fonte, boa fonte, me disse Rubão. Que tinha todos os motivos para odiar policiais. Mas não se deixava contaminar pelo fel dos rancores. Sofrera na carne a barbárie da repressão. Com Maurílio Pinto, amizade e irmandade. “Não vá imaginando que terá privilégios por ser meu filho. Maurílio é pago para desconfiar. Mas é honesto. Se há um atestado que posso dar é o de lisura e Maurílio é um liso, vive de salário,” recitava outro campeoníssimo em falta de convivência com dinheiro.

Boa fonte, bons tempos. Jornal impresso trazia nas manchetes o berro da notícia em sangue quente. Pura, sem exclamação, mas com narrativa e densidade. Crimes poucos, mas bárbaros.

O assassinato de um médico e uma enfermeira, que namoravam, foram
seviciados e queimados onde hoje erguem-se fábricas no bairro de Neópolis, sinalizava: Natal deixava de ser uma província.

E o homem gordo e silencioso rastreando pistas, desvendando assassinatos, conhecendo criminosos pelos métodos, pelo instinto,
talento e herança do pai, Coronel Bento, o Caçador de Bandidos na era passada dos pistoleiros de cangaço.

Maurílio Pinto virou lenda. Menino danado em rua parava ao grito da mãe impotente: “Se aquieta Tonzinho, que eu vou chamar Dr. Maurílio para lhe ajeitar”. Da ameaça, o resultado vinha na transição  ao comportamento angelical.

Assalto a banco. Avenida Rio Branco. Bandidos cariocas levam odinheiro do caixa e fogem de ônibus. Comemoram tomando banho de piscina num hotel da Ladeira do Sol. O recepcionista desconfiou. No automático, ligou para Dr. Maurílio. Que prendeu todo mundo com um revólver 38 na mão, cena posta na capa dos matutinos da época.

Maurílio Pinto, se tinha competência e tino, pecava por falta de vaidade. Foi maltratado, congelado numa delegacia sem função prática e incomodava. Maurílio, polícia por vocação, não por pretensão de estabilidade.

Homenageado na Assembleia Legislativa e na Câmara Municipal anos atrás , acolhido pelo companheirismo de Dona Clarissa, o terror de criminosos aparentava o sofrimento das sequelas de uma trombose.

Maurílio Pinto fazia o mal tremer nas bases. Nunca prendeu franciscano nem pai de família inocente.

Se fosse o que dizem seus inimigos, teria se dado bem na política. Candidato a deputado estadual, ficou entre os 20 suplentes. Arruinado e sem apoio dos companheiros de ideologia e dos que lhe sepultariam
depois, o meu pai foi seu assessor de imprensa na campanha eleitoral. Maurílio não esquecera dele.

Natal, sem alvissareiros, poetas em cada esquina, cada vez mais impessoal, é coberta do luto indefeso, seu rosto autêntico chorando
Maurílio Pinto de Medeiros, seu símbolo protetor morto impiedosamente pela diabetes neste fim de sábado(19/5).

Ausência certamente celebrada como em banquete podre e silêncio covarde pelos abutres dos valores invertidos.

Paz nas estrelas, Xerife.