Aumenta o número de parlamentares que utilizam as redes sociais obsessivamente no exercício de seus mandatos. Esse fato comprova que toma corpo um novo tipo de populismo — o digital
ISTOÉ
Não é só o presidente Jair Bolsonaro que governa pela internet. Legisla-se da mesma forma no Brasil. Os deputados federais estão apostando suas fichas na capacidade de influência digital para se promover política e pessoalmente e vitaminar os seus mandatos. Em certos momentos, os resultados do exercício parlamentar chegam a se confundir com a presença nas redes sociais e com o número de likes, visualizações ou comentários feitos nas postagens. Há uma falsa sensação de democracia direta e uma vontade plebiscitária que se dissemina rapidamente entre alguns legisladores junto à ideia de que a interação midiática significa a participação popular — trata-se, enfim, de um novo tipo de populismo, passando por cima dos patamares que compõem a democracia e criando uma arriscada linha direta com a população. Com celulares nas mãos e paus de selfie, diversos políticos estão sempre fazendo enquetes para orientar sua posição em cada projeto que votam. O risco desse procedimento é se deixar guiar por perfis falsos e robôs.Ou de se confundir a opinião manifestada nas redes com a vontade real dos eleitores e da maioria.
A deputada federal Renata Abreu (Podemos-SP) é uma usuária incansável das mídias sociais — e, como seus correligionários, acredita na força das pesquisas e no engajamento dos seguidores para fazer política. “Tem gente que ganha voto promovendo polêmicas. Nós preferimos promover o relacionamento em massa”, diz ela. “A ideia não é jogar para a plateia, mas sim permitir que o legislador possa se expressar com imparcialidade” — fica a dúvida à qual imparcialidade ela se refere, pois não existe nada mais parcial e extremista do que as redes. Renata acredita que é uma nova forma de se exercer a democracia. Um aplicativo do Podemos permite que se realizem sondagens com o público para verificar em tempo real o apoio ou a rejeição a algum projeto. Renata possui equipe de produção de conteúdo, cinegrafistas, em Brasília e em São Paulo, além de jornalistas.
Como a deputada, diversos parlamentares têm ampliado sua estrutura de mídia para aparecer melhor. Nomes como a da líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP), montaram equipes específicas para isso. Joice tem uma assessora exclusiva para trabalhar com as suas redes. O senador Jorge Kajuru (PSB-GO) montou um estúdio de tevê em seu gabinete para gravar os seus vídeos. Ele dispõe de uma equipe de doze pessoas e produz cinco vídeos por dia. Outros políticos têm aproveitado as redes para transmitir reuniões e encontros importantes. O deputado Júnior Bozzella (PSL-SP) é um deles: “Desde que tomei posse me propus a um trabalho diferenciado, um mandato participativo, que contasse com a interação direta da população”.
Em janeiro desse ano, nos corredores da Câmara, o então coordenador da Frente da Segurança Pública, chamada ‘Bancada da Bala’, o deputado Alberto Fraga (DEM-DF), desferia as suas dúvidas sobre o mandato com auxílio de suas redes sociais. “Queremos ver como vai ser essa bancada do Youtube. Legislar com base apenas nas redes tende a não dar muito certo”, diz ele. “Estamos perdendo o timing das votações, pois não conseguimos compreender a importância de determinados projetos”. A preocupação excessiva em disseminar informações nas mídias sociais pode levar à dispersão e à falta de foco. Outro que fez da sua vida parlamentar em um reality show é o deputado Luís Miranda (DEM-DF). Foi eleito a partir de seus discursos inflamados sobre os preços altos de produtos nos EUA e compartilha suas ações: “Estou percebendo que os parlamentares estão sendo pautados pelas mídias sociais e precisam tomar suas próprias decisões”. O fato é que as redes confundem seguidores sem engajamento com eleitores e falseiam a expressão da maioria. Elas podem ser bom divertimento, mas, na política são o caminho da antidemocrática conexão direta com o povo.